Mostrando postagens com marcador Programadora Brasil. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Programadora Brasil. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 31 de março de 2009

PROGRAMAÇÃO DE ABRIL

(clique no cartaz para vê-lo ampliado)



O Comitê de Cinema da UFOP (ComCine), apoiado pela Pró-Reitoria de Extensão da UFOP (ProEx), o Instituto de Filosofia, Artes e Cultura (IFAC/UFOP) e o Cine-Teatro Vila Rica, inicia as atividades de 2009 em parceria com dois novos pontos de exibição dentro da Universidade: o ICHS (Instituto de Ciências Humanas e Sociais) e o ICEB (Instituto de Ciências Exatas e Biológicas).

Com isso haverá mais opções de lugares e horários para você acompanhar as sessões do ComCine! Tome nota:


SEGUNDAS-FEIRAS – Auditório do ICHS – 16:00
(Rua Cônego Amando, 161 – Mariana/MG)

QUINTAS-FEIRAS – Auditório do ICEB – 19:00
(Campus Morro do Cruzeiro – Ouro Preto/MG)

SEXTAS-FEIRAS – Cine-Teatro Vila Rica – 23:00
(Praça Reinaldo Alves de Brito – Ouro Preto/MG)


Todas as sessões são gratuitas, com filmes da
Programadora Brasil – Central de Acesso ao Cinema Brasileiro.

E nestes primeiros meses do período a mostra é sua! Os filmes que serão exibidos são os mais votados das enquetes feitas no ComCine blog e na comunidade do ComCine no orkut. Não deixe de assistir!






Programação de abril:


*********************************************

[#] O cinema de horror brasileiro em dois tempos do Ivampirismo. Em “O Universo de Mojica Marins”, Cardoso homenageia seu ídolo José Mojica Marins explorando sua obra e "seu satanismo bufo-baudelariano". Revela não apenas a singularidade de sua estética, mas também a criação de uma mitologia brasileira moderna na figura do Zé do Caixão, um ícone sem comparações. Com “As Sete Vampiras”, o cineasta desenvolve seu estilo próprio juntando elementos não apenas de Mojica, mas com citações abertas aos filmes de Alfred Hitchcock, a produções B de terror da década de 1950 e a chanchadas da era Atlântida. Esta mescla de elementos criou no final dos anos 1980 o neologismo crítico 'Terrir', onde a platéia não ri apenas do filme, mas com o filme.


:: AS SETE VAMPIRAS
De Ivan Cardoso
(RJ, 1986, ficção, cor, 86 minutos)

[longa] Na década de 50, o cientista Fred importa da África uma planta carnívora rara. Como o vegetal foi pouquíssimo estudado, ele prepara um antídoto contra seus possíveis efeitos. Mas não tem tempo de usá-lo. Quando sua esposa Sílvia, preocupada com o novo objeto de estudo do marido, deixa o trabalho e vai vê-lo em sua estufa de plantas é tarde demais. Silvia também é atacada. Uma série de crimes inexplicáveis em que as vítimas ficam totalmente sem sangue começa a acontecer

:: O UNIVERSO DE MOJICA MARINS
De Ivan Cardoso

(RJ, 1978, documentário, cor, 26 minutos)

[curta] A vida e a obra do ator, diretor e produtor paulista José Mojica Marins, penetrando em seu estúdio e mostrando seu mundo.


Sexta, 03 de Abril – Cine-Teatro Vila Rica – 23:00
Segunda, 13 de Abril – Auditório do ICHS – 16:00
Quinta, 30 de Abril – Auditório do ICEB – 19:00


ENTRADA FRANCA!





O MUNDO DE IVAN CARDOSO
Por José Roberto Rocha

Ivan Cardoso compartilha com boa parte do Cinema Marginal, movimento no qual começou sua carreira cinematográfica, um gosto irresistível pelo popular. Esta vocação é exercitada sem pudores em todos os seus filmes, desde os curtas-metragens em que estreou como diretor na década de 1970, até seus longas-metragens, em que o horror, a nudez e o humor se misturam em farsas deliciosamente filmadas. O popular muitas vezes é grosseiro e o diretor nunca se esquece disto; ao contrário, deleita-se encenando os mais variados absurdos. Toda sorte de criaturas sobrenaturais – múmias, vampiros, lobisomens – à solta no Brasil, mulheres nuas se ensaboando lascivamente diante da câmera, tramas rocambolescas repletas de situações cômicas: este é o mundo de Ivan Cardoso.

Muito apropriado, então, que “As Sete Vampiras”, grande sucesso de público lançado em 1986, se inicie com a chegada ao Brasil de uma planta carnívora africana capaz de transmutar em vampiros e que o filme se transforme em uma caçada a um assassino serial – devidamente “vampirizado” -, tendo como pano de fundo uma boate onde, é claro, dançarinas se apresentam com pouca ou nenhuma roupa. A deliciosa ambientação no Rio de Janeiro dos anos 1950 (capital dos Estados Unidos do Brasil) é devedora de um universo visual bastante particular onde se misturam revistas em quadrinhos, chanchadas, seriados televisivos e filmes baratos de gênero. Trata-se de homenagens bastante carinhosas que se integram ao filme sem o menor traço de auto-indulgência. Há, inclusive, uma frontalidade digna de uma declaração de princípios na forma como estas referências são apresentadas: o detetive interpretado por Nuno Leal Maia passa boa parte de seu tempo lendo gibis ostensivamente diante da câmera; o próprio Hitchcock apresenta o filme como fazia com os episódios de sua famosa série; grandes nomes da chanchada – Colé Santana, Wilson Grey e Zezé Macedo, entre outros - desfilam diante da câmera sem grandes funções narrativas. As Sete Vampiras é de uma honestidade apaixonante em mostrar o que interessa e, mais importante, da forma que interessa. Isso é o que faz dele uma obra tão especial.

Já “O Universo de José Mojica Marins”, curta do mesmo diretor, que complementa este programa, é um tratado a respeito da imensa fascinação exercida pelo criador do mítico Zé do Caixão, tanto por sua obra, como para além dela. Neste pequeno documentário, são intercaladas cenas de seus principais filmes com depoimentos, na grande maioria, do próprio José Mojica Marins. Desta forma franca, Ivan Cardoso consegue esboçar a visão apaixonada de cinema e de mundo de Mojica, talvez a figura que melhor represente sua idéia de cinema popular brasileiro.





*********************************************

[~] Com desenvoltura rara para um estreante, o cineasta André Klotzel faz em A marvada carne uma homenagem ao universo da cultura caipira, vista aqui num embate com a cultura da cidade. Adaptação de uma peça teatral de Alfredo Soffredini, o filme também recorre à mitologia brasileira ao colocar em cena figuras como o Saci e o Curupira. Com nove Kikitos no Festival de Gramado, em 1984, é uma das comédias mais divertidas do moderno cinema brasileiro. Comportamentos urbanos também estão em pauta em Almoço executivo, curta assinado pela dupla Marina Person e Jorge Espírito-Santo, que partem de um fato corriqueiro para realizar uma comédia de humor imprevisível.


:: A MARVADA CARNE
De André Klotzel
(SP, 1985, ficção, cor, 77 minutos)

[longa] Nhô Quim vive lá nos cafundós em companhia do cachorro e da cabra de estimação. Aquela vidinha besta no meio do mato não dá pé e ele resolve cair no mundo e procurar a solução para duas questões que o incomodam: arranjar uma boa moça para o casório e comer a tal carne de boi, um desejo que fica ruminando sem parar dentro dele. Nas suas andanças, Nhô Quim vai dar na casa de Nhô Totó, cuja filha está em conflito com Santo Antônio, que não anda colaborando para ela arranjar um bom marido. E logo Nhô Quim descobre que o pai da moça tem um boi reservado para a ocasião do casamento da filha. Será este o momento para Nhô Quim realizar seus dois maiores desejos?


:: ALMOÇO EXECUTIVO
De Jorge Espírito-Santo e Marina Person

(SP, 1996, ficção, cor, 14 minutos)

[curta] Cinco amigos se encontram para almoçar. Nada poderia ser mais corriqueiro. Mas por alguma razão, ninguém ficou para a sobremesa.


Segunda, 06 de Abril – Auditório do ICHS – 16:00
Quinta, 16 de Abril – Auditório do ICEB – 19:00
Sexta, 24 de Abril – Cine-Teatro Vila Rica – 23:00


ENTRADA FRANCA!



A COMIDA NO ESPAÇO URBANO E NO ESPAÇO RURAL
Por Marcelo Miranda

Dois espaços opostos, dois universos distintos. A princípio, e ao se olhar unicamente as sinopses, nada parece aproximar o longa "A marvada carne" (1985) do curta "Almoço executivo" (1996). Porém, assistir a um acompanhado do outro funciona não apenas na percepção de suas diferenças, mas muito mais nas semelhanças - sendo a maior delas a forma como cada realizador capta o ambiente escolhido a partir de um elemento comum: a comida.

A alimentação é o que faz o homem caminhar, e é dela que os personagens dos dois filmes saem à cata. No caso de A marvada carne, comida é mola-mestre da ação: o caipira Nhô Quim sonha em comer carne de boi e sai pela mata à procura do bicho. De quebra, ainda quer uma mulher com quem possa se casar. É através do contato de Quim e de sua futura esposa, Carula, que o diretor André Klotzel vai explorar o universo ao redor deles.

Mais que isso: Quim e Carula, e todos os demais personagens que os cercam, são partes intrínsecas desse universo. Para reafirmar a idéia presente ao longo de todo o filme, Klotzel filma os atores sempre em contato direto com o ambiente, e o ambiente a todo instante em conflito com os atores. Seja por meio de crendices populares (o curupira, o rio sem peixe, o nariz colado ao contrário, a negociação com o diabo) ou da simples captação de um cotidiano comum (a construção do casebre que será palco de festas, os almoços na beira da terra, os animais que rodeiam a fazenda), "A marvada carne" é composto por toda uma gama de símbolos nos quais Quim, Carula, Nhô Totó e Nhá Tomasa são integrantes indissociáveis.

É interessante também inserir A marvada carne dentro de um subgênero tipicamente brasileiro: os filmes "sertanejos", cuja imagem mais forte é a de Amacio Mazzaropi. Esse tipo de produção tem o humor firmado no jeito, ora ingênuo e ora matuto, do jeca roceiro - e sua interação com o outro, o estranho da cidade grande que eventualmente vai ludibriá-lo. Tais filmes costumam ter grande apelo popular por retratarem uma fatia da população relegada quase a último plano em todas as instâncias e totalmente ausente das salas de cinema. Trabalhos como os recentes "Tapete vermelho" (2006) e "Dois filhos de Francisco" (2005), além de "A marvada carne", servem como resgate de um olhar carinhoso e cúmplice àqueles que, de certa forma, guardam alguma virgindade no jeito de enxergar a realidade.

Por sua vez, "Almoço executivo" coloca o olho da câmera na cidade grande. Do encontro entre um grupo de amigos num restaurante, pipocam diversos incidentes que, na pouca duração do curta, servem de ilustração a um microcosmo do caos urbano. Estão lá os mais característicos comportamentos da selva metropolitana: trânsito congestionado, corre-corre, impaciência, abuso de poder. A dupla Marina Person e Jorge Espírito-Santo, responsável pelo filme, busca fazer um pequeno painel sócio-cultural dentro de um acontecimento cuja banalidade apenas torna mais grave suas conseqüências. Assim como A marvada carne em relação ao rural, Almoço executivo utiliza-se de signos do próprio espaço cênico para refletir o comportamento de quem está dentro desse espaço.





*********************************************
[*] Incluído nos créditos de “Corisco e Dada”, o material de arquivo sobre as ações de Lampião e de seus comandados constitui uma introdução oportuna ao longa metragem, com destaque para a qualidade da trilha musical. O mascate Benjamin Abraão, autor das filmagens reais, aparece em momentos da ficção, a epopéia de Corisco e Dadá, contada por Regina Dourado a pescadores cearenses. A narrativa é construída por sucessão de episódios da vida dos protagonistas, com mitos infiltrados nos fatos históricos. Há citações esparsas ao Corisco de Glauber Rocha em “Deus e o diabo na terra do sol”. O curta de José Humberto é complemento perfeito ao filme de ficção. Em cenas documentais, entremeadas também com materiais de arquivo, Dadá já bem idosa relata os fatos da sua vida nos acampamentos de Lampião, do medo à pacificação, das alegrias às tensões da guerra desigual que, depois de 20 anos, dizimaria a revolta camponesa dos cangaceiros.


:: CORISCO E DADÁ
De Rosemberg Cariry

(CE, 1996, ficção, cor, 96 minutos)

[longa] O Capitão Corisco, cognominado de Diabo Loiro, reputado pela sua crueldade, sua valentia e sua beleza, rapta Dadá, quando esta tinha 12 anos de idade, condenando-a a difícil vida do cangaço. A partir daí, a vida do cangaceiro transforma-se por completo. Ele é um condenado de Deus cujo destino é lavar com sangue os pecados do mundo. Dadá, que a princípio o odiava, vê o companheirismo, entre lutas e dificuldades, transformar-se em amor. É o amor de Dadá que humaniza Corisco e determina sua nova história. A história de um amor impossível, uma visão trágica e fascinante do homem e do sertão.


:: A MUSA DO CANGAÇO
De José Umberto

(BA, 1982, documentário, PxB, 15 minutos)

[curta] Visão interna do cangaço feita por Dadá, mulher de Corisco, subtenente do grupo de Lampião. Ela presta um depoimento sobre sua vivência entre os cabras de Lampião, “o rei do cangaço”, destacando sua forma de organização como grupo, o modo de comportamento, a luta pela sobrevivência, os códigos de honra, as táticas de guerrilha aplicadas e os amores dos cangaceiros. O documentário se propõe revelar o papel da mulher e sua participação efetiva nesse fenômeno de luta armada no nordeste brasileiro.


Sexta, 17 de Abril – Cine-Teatro Vila Rica – 23:00
Quinta, 23 de Abril – Auditório do ICEB – 19:00
Segunda, 27 de Abril – Auditório do ICHS – 16:00


ENTRADA FRANCA!



DOIS OLHARES SOBRE UM AMOR SERTANEJO
Por João Carlos Sampaio

Uma história de amor e tragédia contada duas vezes. “Corisco & Dada”, longa-metragem de ficção do cearense Rosemberg Cariry, sublinha a voz do cangaceiro, cheia de questões sobre a vida e a morte no sertão. Enquanto que o curta documental “A Musa do Cangaço”, do sergipano José Umberto Dias, se faz feminino na voz da própria Dadá que exibe a mansidão das respostas cristalizadas pelos anos.

A primeira imagem do filme de Cariry é o mar, a quase antítese caudalosa da secura sertaneja. Na voz da contadora de histórias encarnada pela atriz Regina Dourado o engano se desfaz. Em tempo presente, ela prepara o espectador para a abundância de leituras da narrativa e avisa: “o sertão é mar”.

“Corisco & Dada” se ocupa, em parte, do relato de uma história conhecida. A menina-mulher arrancada do lar pelo cangaceiro vai ter a repulsa ao seu algoz metamorfoseada em paixão. Um amor que resiste à mortandade e ao ocaso do cangaço.

Sem se deter à mera reconstituição histórica, o diretor vai atrás dos significados dessa união homem-mulher, da razão de ser do banditismo, da vida esturricada pelo sol e pelo abandono. Evoca o simbólico país de São Saruê, referência do cordel e depois do cinema (clássico documentário do paraibano Vladimir Carvalho), que é o equivalente à bíblica Terra Prometida.

Corisco está à frente no título e na condução da história contada por Cariry. É ele que olhando o vazio avermelhado da caatinga vai ousar supor como seria a aliança do cangaço com a Coluna Prestes. Revolucionário, diz que o sertão precisa desaparecer e ser reinventado. A frase se ouve logo após a melodia da alegórica canção separatista "Nordeste Independente", de Bráulio Tavares e Ivanildo Vilanova.

Tal qual “Deus e o Diabo na Terra do Sol”, de Glauber Rocha, “Corisco & Dada” também se debruça sobre o cristianismo messiânico. O batismo às margens do rio Jordão é revisto no cenário sertanejo. Só que na testa do bebê do casal escorre sangue e não água. “Deus alumia minha pontaria”, diz Corisco (Chico Diaz). Ao que retruca Dadá (Dira Paes): “mas é o diabo que faz o fogo ser cuspido da boca do seu fuzil”.

Um bode, animal da região capaz de resistir à seca, é destrinchado num dos primeiros momentos do filme. Seus olhos são arrancados. Como as mãos lavadas de pilatos, o sertão não tem mãos (nem olhos) que dele se ocupem, é dor que não se vê.

Assim a figura serena da ex-cangaceira Dadá, uma mulher sexagenária no curta-metragem de José Umberto, é mais do que uma resposta mansa e feminina. É acalanto para toda a perda. O cangaço é, na lembrança dela, um tempo de fraternidade e alegria. A arma de fogo é comparada a um brinquedo, assim como é dito que a essência de Corisco é brandura e cavalheirismo.

Aquela avó e mãe que circula nas ruas de Salvador e manipula habilmente sua máquina de costura parece estar em paz. Ela conseguiu enterrar a cabeça cortada e insepulta do seu amor. Não por acaso, a imagem que encerra estes dói.


*********************************************





O ComCine UFOP

Criado em 2004, o ComCine – Comitê de Cinema da Universidade Federal de Ouro Preto, é um grupo formado por pessoas de diversas áreas da universidade (alunos, professores e funcionários) e também da comunidade externa, reunidos todos pela admiração ao cinema. Seu principal objetivo é servir como fórum de discussão sobre o audiovisual, considerando a sua produção, circulação e recepção. Trabalha levando o melhor do cinema às pessoas, num processo de formação de público e olhar crítico. Em 2006, o Conselho Universitário (CUNI) aprovou seu regimento interno, reconhecendo-o como espaço privilegiado de discussão e deliberação sobre o audiovisual na UFOP.

Entre suas atividades, destacamos a curadoria da área de Artes Visuais (cinema, vídeo, fotografia) do Festival de Inverno de Ouro Preto e Mariana – Fórum das Artes 2007 e 2008, além da elaboração de mostras regulares ao longo do ano, compostas por filmes temáticos e alternativos, em sessões gratuitas e, por vezes, itinerantes, nestas mesmas cidades. Uma vez a cada período letivo da universidade, promove a "Conversando Cinema": a mostra de filmes comentados por professores, às 21h, no Cine-Teatro Vila Rica, com duração de uma semana e entrada gratuita.

As reuniões são abertas a todos os interessados, para, entre uma discussão e outra, planejar mostras gratuitas, sugerir filmes para a programação do Cine-Teatro Vila Rica – o qual faz parte do patrimônio da UFOP – e criar novas idéias para estimular a comunidade a interessar-se por esta que é chamada a Sétima Arte.
Participe da nossa comunidade no orkut!
Veja nosso álbum de fotos!

Para receber a programação semanal do ComCine no seu e-mail, envie uma mensagem para comcine@ufop.br!

quinta-feira, 5 de março de 2009

PROGRAMAÇÃO DE MARÇO

Clique no cartaz para vê-lo ampliado.
O Comitê de Cinema da UFOP (ComCine), apoiado pela Pró-Reitoria de Extensão da UFOP (ProEx), o Instituto de Filosofia, Artes e Cultura (IFAC/UFOP) e o Cine-Teatro Vila Rica, inicia as atividades de 2009 em parceria com dois novos pontos de exibição dentro da Universidade: o ICHS (Instituto de Ciências Humanas e Sociais) e o ICEB (Instituto de Ciências Exatas e Biológicas).

Com isso haverá mais opções de lugares e horários para você acompanhar as sessões do ComCine! Tome nota:


SEGUNDAS-FEIRAS – Auditório do ICHS – 16:00


QUINTAS-FEIRAS – Auditório do ICEB – 19:00

SEXTAS-FEIRAS – Cine-Teatro Vila Rica – 23:00



Todas as sessões são gratuitas, com filmes da Programadora Brasil – Central de Acesso ao Cinema Brasileiro.


E nestes primeiros meses do período a mostra é sua! Os filmes que serão exibidos são os mais votados das enquetes feitas no ComCine blog e na comunidade do ComCine no orkut. Não deixe de assistir!



 

 
*********************************************
 
[#] Quem é de fato o poeta? De maneiras bem diferentes, esses dois filmes tentam responder a uma pergunta que o cinema freqüentemente se coloca, desde Jean Cocteau. Em “O Poeta de Sete Faces”, feito para comemorar o centenário de Carlos Drummond de Andrade, Paulo Thiago lança mão de linguagens bastante diversas – que incluem o documentário, a ficção e o recital – para retratar um Drummond multifacetado. Já no curta “Satori Uso”, Rodrigo Grota inventa um poeta, um cineasta e um filme-dentro-do-filme para revelar fragmentos da vida de um homem que escrevia para desaparecer. Cada qual à sua maneira, um e outro respondem ao desafio de fazer a poesia chegar à tela cinematográfica.



:: POETA DE SETE FACES



De Paulo Thiago
(RJ, 2001, documentário, cor, 94 minutos)


[longa] O documentário tem como linha mestra retratar a trajetória humana do poeta Carlos Drummond de Andrade, ao mesmo tempo em que investiga, documenta e interpreta os diversos momentos de sua obra. O objetivo é transcender ao mero registro dos fatos da vida, mas mostrar como estes se mesclam nas transformações dos diversos rumos que tomam sua poesia: trata-se portanto de um “documentário poético”, onde o espírito, o clima e a emoção da arte drummondiana estão sempre presentes, definindo o texto, a imagem, a música, a montagem e o desenvolvimento dramático do filme





:: SATORI USO



De Rodrigo Grota
(PR, 2007, ficção, cor, 17 minutos)

[curta] Um poeta das sombras, um cineasta sem filmes, e uma musa enigmática. Um "documentário" sobre um poeta que nunca existiu, apresentado por um cineasta imaginário.


Quinta, 5 de Março – Auditório do ICEB – 19:00

Segunda, 9 de Março – Auditório do ICHS – 16:00

Sexta, 27 de Março – Cine-Teatro Vila Rica – 23:00


ENTRADA FRANCA!


AS MUITAS FACES DE DRUMMOND
Por Paulo Henrique Silva



Características marcantes da poesia de Carlos Drummond de Andrade, como simplicidade, humor, estranheza e familiaridade, também estão presentes no documentário “Poeta de Sete Faces”, dirigido pelo cineasta mineiro Paulo Thiago e lançado nos cinemas em 2002, ano do centenário desse que é um dos maiores nomes da nossa literatura. Ao mesmo tempo em que mantém um caráter didático do início ao fim, passeando, de forma cronológica, pela história e obra do poeta itabirano, o filme insere elementos que arejam a narrativa e dialogam com o estilo de Drummond.

Ao optar pelo docudrama, dramatizando várias passagens da trajetória do escritor, Paulo Thiago reserva para Drummond o papel de “gauche”, caminhando entre seus personagens e interlocutores com o olhar perplexo que pautou a sua poesia. O ator Carlos Gregório estampa o Drummond de “Poema de Sete Faces”, texto de abertura do livro “Aquela Poesia”, publicado em 1930, estabelecendo assim a conexão com o título do documentário e o propósito múltiplo do projeto de um cineasta que tem dedicado parte de sua filmografia à valorização da literatura brasileira.

As muitas faces do poeta são incorporadas na narrativa, em dramatizações e apresentações musicais inspiradas em versos de Drummond, e depoimentos de estudiosos e companheiros de escrita, como Ferreira Gullar, Adélia Prado e Affonso Romano de Sant’Anna, que dissecam, basicamente, as três grandes fases do autor – a primeira delas, que vai de 1902 a 1934, do nascimento à formação anedótica e modernista em Belo Horizonte; a segunda, já no Rio de Janeiro, contempla o lado político e de crítica social; e a última, entre as décadas de 1950 e 1980, de cunho mais filosófico.


As dramatizações são simples e curtas, muitas delas carregadas com a ironia típica de Drummond, como em “Quadrilha” e “Boitempo”. Os musicais abarcam estilos diversos, do pop de Samuel Rosa (vocalista do Skank) à música lírica de Maria Lúcia Godoy, passando pelo Coral Calíope, que interpreta “E Agora, José?”. Estas intervenções dentro do documentário tradicional (jornalístico) conferem uma certa estranheza, resultando numa atmosfera lúdica e envolvente que, em nenhum momento, entra em choque com a narração informativa de Júlia Lemmertz, ilustrada por raras imagens de arquivo.


Já o curta-metragem “Satori Uso” (2007) é um falso documentário, sobre personagens que nunca existiram. Em tempos que a realidade mais ordinária ganha amplo espaço na mídia, o filme do diretor Rodrigo Grota segue caminho inverso, buscando uma grandeza e uma singularidade que só existem na ficção. Através de um poeta japonês pouco conhecido e de um cineasta norte-americano underground, o curta se apropria com muita sensibilidade do contexto dos movimentos culturais de uma época (anos 1950 e 1960, principalmente), adotando estilo semelhante, como fotografia em preto-e-branco e narrativa contemplativa, que é o que há de mais documental em “Satori Uso”, apontando para uma manifestação de arte que não existe mais.






*********************************************







[*] Com equilíbrio entre forma e fundo raro para um estreante, o pernambucano Marcelo Gomes realizou uma das melhores abordagens do sertão nordestino e um dos grandes momentos do cinema brasileiro atual. O encontro entre um alemão, fugido da Segunda Guerra Mundial, e um nordestino que quer ir para a cidade grande em busca de oportunidades, rende um belo e original road-movie (filme de estrada). O diretor investe no despojamento formal, mas cria uma nova estética, resultado de um fecundo diálogo com a paisagem agreste. O sertão nordestino também é cenário do curta “O crime da imagem”, realizado por outro pernambucano, Lírio Ferreira. O filme mostra Antônio Conselheiro antes de se tornar o líder de Canudos.






:: CINEMA, ASPIRINAS E URUBUS



De Marcelo Gomes
(PE, 2005, ficção, cor, 99 minutos)

[longa] 1942. No meio do sertão nordestino, dois homens se encontram: Johann, um alemão que fugiu da Guerra, e Ranulpho, um brasileiro que quer escapar da seca que assola a região. Viajando de povoado em povoado, eles exibem filmes para pessoas que já haviam conhecido o cinema, para vender um remédio “milagroso”. Continuando a cruzar as estradas empoeiradas de um sertão arcaico, eles buscam novos horizontes em suas vidas. Nesta jornada, os dois aprendem a respeitar as diferenças e surge entre eles uma amizade incomum, mas que marcará suas vidas para sempre.





:: O CRIME DA IMAGEM



De Lírio Ferreira
(PE, 1992, ficção, cor, 13 minutos)

[curta] Viagem simulada por um sertanejo desconfiado da fidelidade da esposa tem desfecho trágico. Episódio lendário sobre Antônio Conselheiro, antes de se tornar um líder político-místico-religioso.




Sexta, 6 de Março – Cine Teatro Vila Rica – 23:00

Segunda, 16 de Março – Auditório do ICHS – 16:00

Quinta, 02 de Abril – Auditório do ICEB – 19:00



ENTRADA FRANCA!

 



CINEASTAS DE PERNAMBUCO SE AVENTURAM PELO SERTÃO
Por João Carlos Sampaio

Um comerciante que usa o cinema como meio publicitário para vender aspirinas sob o céu do sertão ensolarado, sem nuvens e povoado por urubus. Daí surge o título “Cinema, Aspirinas e Urubus”, do cineasta Marcelo Gomes, que forma dupla nesta edição com Lírio Ferreira e o seu “O Crime da Imagem”. São dois marcantes momentos do cinema pernambucano.

O longa-metragem de Gomes, lançado no Festival de Cannes em 2005, sinaliza a maturidade cinematográfica de uma geração, que pôs os pés na estrada justamente com curtas como “O Crime da Imagem”, realizado em 1992. Nele trabalharam nomes como os atuais diretores João Falcão e Paulo Caldas, o roteirista e diretor Hilton Lacerda, a diretora de fotografia Kátia Coelho e o ator Aramis Trindade, além do próprio Lírio Ferreira.


Cinema, Aspirinas e Urubus é um filme de estrada, que aposta no humor singelo, sustentado por uma espécie de “causo” típico do interior. Apresenta uma impressionante fotografia de tons alaranjados, que traduzem o calor do sol escaldante e os cenários amplos do sertão. Prima por diálogos bem concebidos e pela atuação impecável da dupla central de atores, Peter Ketnath e João Miguel. Um vigoroso exercício de cinema.


A fotografia, assinada por Mauro Pinheiro, é talvez a maior virtude deste filme, que começa com uma imagem totalmente estourada pelo excesso de luz, para progressivamente, dar correção e foco, revelando uma paleta de cores com variação entre o dourado e o ocre. Dos tons amarelados aos esbranquiçados, muito contraste para evocar a luminosidade do semi-árido.


A trama confronta dois personagens bem distintos, dois mundos que se encontram no Brasil do início dos anos 1940. Um deles é um alemão fugido da guerra (Ketnath), que, a bordo de um caminhão, se embrenha pelos bretões do semi-árido pernambucano para vender analgésicos, usando como chamariz para o seu comércio um equipamento de projeção.


Durante as andanças do alemão, surge um matuto (João Miguel), que se torna ajudante, alimentando o sonho pessoal de um dia viajar com o novo patrão rumo à cidade grande, quem sabe, o Rio de Janeiro. Esse par improvável vai resultar numa forte amizade, capaz de superar todas as diferenças, numa aventura que prima pelo olhar humanista.


“O Crime da Imagem”, por sua vez, sintetiza em treze minutos a essência da peça teatral “O Crime do Conselheiro e as Lágrimas do Leão de Natuba”, de Rubem Rocha Filho. Fala de Antonio Conselheiro (o ator Tuca Andrada) antes do seu chamamento à missão de profeta messiânico, exibindo um homem dividido entre a devoção à esposa e o medo de ser traído por este amor.


Ferreira cria uma narrativa que se assemelha a uma alucinação, com forte influência impressionista. Um drama psicológico de poucos personagens e duas ambientações, o claustrofóbico lar de Antonio e as cercanias externas, que aparecem na penumbra de uma noite de desatino e na claridade empoeirada do dia em que se vê uma procissão serpenteando pela paisagem seca do sertão e o próprio Conselheiro em busca de seu caminho.




 
*********************************************


[~] Da herança de imagens do cinema brasileiro vem essas duas jóias que abrem uma janela para o passado filmado de Salvador (BA), e também do Brasil. No curta-metragem “Um Dia Na Rampa” (1957), de Luiz Paulino dos Santos, uma série de instantâneos do porto de serviços de Salvador, nos anos 1950, nos mostram a rampa do Mercado Modelo, entrada e saída dos trabalhadores do mar. No longa-metragem “Bahia de Todos os Santos” (1960), o diretor Trigueirinho Neto apresenta um painel político e social do país na era Vargas. Aclamado pela crítica e estrelado por Geraldo Del Rey, o filme é marcado por fotografia expressiva de Guglielmo Lombardi.
:: BAHIA DE TODOS OS SANTOS

De Trigueirinho Neto
(BA, 1960, ficção, PxB, 98 minutos)

[longa] A trama gira em torno de um grupo de amigos inconformados com o marasmo e a vida monótona da capital baiana, na época da ditadura de Getúlio Vargas. Tonho, um mulato rejeitado pelos pais que vive de pequenos furtos no porto de Salvador, vive conflitos sociais, políticos e religiosos. Sua amante inglesa quer afastá-lo dos companheiros, mas ele se envolve num atrito entre grevistas e a polícia, terminando por roubar a amante para ajudar os perseguidos. Insatisfeita, ela o denuncia, comprometendo-o politicamente. Ele é preso e, quando volta para a família, seu drama permanece.




:: UM DIA NA RAMPA



De Luiz Paulino dos Santos

(BA, 1957, documentário, PxB, 10 minutos)


[curta] Um dia na rampa do mercado modelo de Salvador, onde chegavam os saveiros voltando do recôncavo trazendo produtos para comércio na capital. Tradição da capoeira, do candomblé e outros costumes são apresentados no decorrer do filme, rodado em 1955.



Sexta, 13 de Março – Cine-Teatro Vila Rica – 23:00

Quinta, 19 de Março – Auditório do ICEB – 19:00

Segunda, 30 de Março – Auditório do ICHS – 16:00


ENTRADA FRANCA!









RETRATOS DA DIVERSIDADE
Por Lúcio Flávio


Realizado em meados dos anos 1950 - mas só lançado em 1961 -, “Bahia de Todos os Santos”, de Trigueirinho Neto, foi, pode-se dizer, um dos precursores do Cinema Novo, emergindo como uma semente da corrente que sacudiu a cena cinematográfica na década de 1960.


Aparentemente a trama é de uma simplicidade gritante. Gira em torno de um grupo de amigos inconformados com o marasmo e a vida monótona da capital baiana - que é passada a limpo, logo na abertura, num belíssimo plano-sequência que capta alguns signos da região, como o dia-a-dia dos pescadores e seus barcos à vela navegando sob um céu carregado, o mar aberto com suas ondas hipnotizantes, ou pelo sincretismo religioso que banha essa "Bahia de todos os santos".


Conflitos sociais estes desafogados pelas pessoas simples do local em casas noturnas, norteadas, claro, pelos prazeres da vida como a bebida, a música do momento e o sexo. "Todo mundo quer sair daqui! Vou me embora para São Paulo", revolta-se, em dado momento da história, o personagem de Antônio Pitanga, irreconhecível em suas feições joviais. "Para mudar de cidade precisa de protetor, um pistoleiro", retruca um outro.


Mas é justamente diante deste clima de inércia que se encontra os personagens malditos de Bahia de Todos os Santos, mergulhado, nas entrelinhas, dentro de um turbilhão semiótico construído pelo roteiro de Trigueirinho. Entre eles o permanente conflito entre religião e política, autoritarismo e submissão social, burguesia e miséria. E não apenas isso: estão presentes temas bastante espinhentos para época - como comunismo, greve, sindicalismo, adultério e racismo. Tudo abordado de forma direta e incisiva. De um pragmatismo que assusta. "Não é preciso saber ler para cumprir o decreto do presidente", diz um dos milicos à uma mãe-de-santo, em represália ao candomblé e suas manifestações exaltadoras. A passagem, aliás, denuncia objetivamente a precária condição da educação no Brasil daqueles longínquos anos 1950. Um problema que, como constatamos, diante da atual realidade, atávico.


Pensado como um projeto dividido em cinco episódios - com um deles dirigido pelo então jovem Glauber Rocha -, Bahia de Todos os Santos (mais tarde apropriado pelo paulista Trigueirinho), é um retrato pungente de uma região marcada por suas contradições culturais e religiosas, por sua diversidade social.


Não é de se estranhar que o filme, pertencente ao fenômeno baiano que assaltou os cinco primeiros anos da década de 1960 do cinema brasileiro, tenha influenciado projetos futuros com sua apurada estética antropológica. Talvez a referência mais imediata, mais próxima, esteja no seminal Barravento, primeiro longa-metragem dirigido por Glauber Rocha, em 1962. Embora mais focado na questão do misticismo e suas contradições, a obra glauberiana mantém o discurso socialista que permeia Bahia de Todos os Santos, que viria a ser o único trabalho dirigido por Trigueirinho. Pouco depois de realizar o filme o roteirista, diretor e produtor paulista abandonaria a sétima arte para torna-se líder espiritual com mais de 70 livros publicados.


E das sobras de um outro projeto, o malogrado documentário Bahia, Tradição e Festa, realizaria o curta-metragem “Um Dia na Rampa”, filme que surge de introdução para o longa “Bahia de Todos os Santos”. Com pouco menos de 10 minutos, o trabalho, sonorizado por Glauber Rocha, é um registro realista de um dia de trabalho na Rampa, tradicional ponto de comércio da capital baiana. Com seu olhar minucioso de fotógrafo, Luiz Paulino dos Santos flagrar momentos preciosos do cotidiano daquele nicho permeado por pescadores, capoeiristas, barcos à vela, vendedores, turistas, homens comuns deleitando-se com o gosto da cachaça num do vários botequins do cais. Trata-se de verdadeira poesia visual que adornaria com propriedade as melodias arrastadas de Dorival Caymmi ou a literatura prolífera de Jorge Amado.




*********************************************





O ComCine UFOP


Criado em 2004, o ComCine – Comitê de Cinema da Universidade Federal de Ouro Preto, é um grupo formado por pessoas de diversas áreas da universidade (alunos, professores e funcionários) e também da comunidade externa, reunidos todos pela admiração ao cinema. Seu principal objetivo é servir como fórum de discussão sobre o audiovisual, considerando a sua produção, circulação e recepção. Trabalha levando o melhor do cinema às pessoas, num processo de formação de público e olhar crítico. Em 2006, o Conselho Universitário (CUNI) aprovou seu regimento interno, reconhecendo-o como espaço privilegiado de discussão e deliberação sobre o audiovisual na UFOP.


Entre suas atividades, destacamos a curadoria da área de Artes Visuais (cinema, vídeo, fotografia) do Festival de Inverno de Ouro Preto e Mariana – Fórum das Artes 2007 e 2008, além da elaboração de mostras regulares ao longo do ano, compostas por filmes temáticos e alternativos, em sessões gratuitas e, por vezes, itinerantes, nestas mesmas cidades. Uma vez a cada período letivo da universidade, promove a "Conversando Cinema": a mostra de filmes comentados por professores, às 21h, no Cine-Teatro Vila Rica, com duração de uma semana e entrada gratuita.


As reuniões são abertas a todos os interessados, para, entre uma discussão e outra, planejar mostras gratuitas, sugerir filmes para a programação do Cine-Teatro Vila Rica – o qual faz parte do patrimônio da UFOP – e criar novas idéias para estimular a comunidade a interessar-se por esta que é chamada a Sétima Arte.


quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

O HOMEM QUE VIROU SUCO

O Comitê de Cinema da UFOP (ComCine), a Pró-Reitoria de Extensão da UFOP (ProEx), o Instituto de Filosofia, Artes e Cultura (IFAC/UFOP) e o Cine-Teatro Vila Rica apresentam o último filme do Cineclube ComCine deste ano. Todas as sessões são gratuitas, com filmes da Programadora Brasil – Central de Acesso ao Cinema Brasileiro.




Nesta semana:


Histórias populares do Nordeste estão neste programa composto de dois filmes realizados na mesma época. São as histórias transmitidas oralmente que eventualmente se transformam em literatura de cordel e em canções. A animação pernambucana A saga da Asa Branca ilustra, em estilo de cordel, a célebre toada Asa Branca, de Humberto Teixeira e Luiz Gonzaga, gravada pelo rei do baião pela primeira vez em 1947. Também em estilo de cordel, O homem que virou suco é um dos filmes mais contundentes e fascinantes sobre o tema da migração nordestina para São Paulo. Nele, o ator José Dumont desempenha duplo papel, de dois migrantes em que um assassino e um cantador são confundidos. Diversão e reflexão.


:: A SAGA DA ASA BRANCA

De Lula Gonzaga

(RJ, 1979, animação, cor, 7 minutos)


[CURTA] Asa Branca é um pássaro de arribação que voa do sertão quando percebe que a seca vai chegar. O filme é um "semi-documentário" em desenho animado, que retrata o pássaro e o sertanejo com sua mulher (Bernardino e Rosinha), partindo da sua terra com a chegada da estiagem. Com texto e narração de Humberto Teixeira, compositor da música Asa Branca, foi este o único trabalho de Humberto no cinema e também seu último trabalho. Na trilha sonora, o arranjo sinfônico do maestro Guerra Peixe.
:: O HOMEM QUE VIROU SUCO

De João Batista de Andrade

(SP, 1979, ficção, cor, 97 minutos)


[LONGA] A história segue Deraldo, um poeta popular nordestino recém chegado a São Paulo, onde tenta sobreviver de sua poesia e folhetos. Confundido com o operário de uma multinacional que mata o patrão, é perseguido pela polícia e perde sua identidade e condição de cidadão. Através de Deraldo, o filme acompanha o caminho do trabalhador migrante numa cidade grande: a construção civil, os serviços domésticos e subempregos sujeitos à violência e à humilhação. E segue a luta de Deraldo para reconquistar sua liberdade e preservar sua identidade.



Data: Sexta, 05 de dezembro

Local: Cine-Teatro Vila Rica

Hora: 23:00


ENTRADA FRANCA





CLÁSSICO E POPULAR

Por Carlos Alberto Mattos



O Homem que virou suco é exemplo típico - e um dos melhores - de um conjunto de operações que o cinema brasileiro fazia na segunda metade da década de 1970 para estabelecer um diálogo melhor com o público, sem trair as conquistas estéticas do Cinema Novo e do Cinema Marginal.


Para começar, o filme reelabora padrões da narrativa clássica com ingredientes de um cinema popular. Basicamente, é a história do duplo (expressionismo alemão) e do homem errado (policial estadunidense) que se desenrola entre Severino e Deraldo, os dois sósias nordestinos envolvidos num equívoco criminal. O tema igualmente clássico do imigrante é tratado desde o título, e em toda sua extensão, como material de literatura de cordel. Assim o diretor procura fundir seu filme com formas de representação características do povo nordestino.


Naquele período, o cinema brasileiro também experimentava uma crescente simbiose entre práticas do documentário e da ficção, num movimento iniciado por Iracema - Uma transa amazônica, em 1974, de Jorge Bodanzky e Orlando Senna. Daí a importância da improvisação nos diálogos, de uma relação especialmente livre entre câmera e atores e até de uma certa submissão da técnica às condições do local de filmagem.


Por fim, vemos um diretor que não abre mão de seu passado. É nas seqüências de rua que João Batista de Andrade semeia os ecos de sua militância no cinema marginal paulista anos antes, quando era comum promover-se performances em praça pública para que o filme absorvesse o inesperado da participação popular.


Esta denúncia do esmagamento dos deraldos e severinos, seja pela marginalização, seja pela inserção aviltante, conta com a sensibilidade do diretor para criar uma poética em meio ao drama e à comédia. As cenas da batida policial noturna e da leitura da carta no alojamento dos operários são reveladoras de um olhar humanista que transcende toda urgência e objetividade.


A presença de José Dumont, no filme que o revelou plenamente, extrapola a mera questão cênica. No fundo, é o próprio ator que está na pele de Deraldo, ele que também chegou da Paraíba sem documentos e soube se impor pelas artes do talento. Coisa semelhante se passou com o próprio filme, lançado em 1980 sem maior repercussão e “redescoberto” pelos brasileiros depois de vencer ex-aequo o Festival de Moscou. O suco, portanto, só veio depois da vodka.


O curta que complementa este programa reverbera o tema da imigração a partir de outro ícone da cultura nordestina: a canção Asa Branca, de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira. Uma animação naïf, mas expressiva, reitera o drama da fuga para um sonho impossível.

Colabore na escolha dos filmes do Cineclube ComCine de 2009, votando nas enquetes disponíveis em nosso blog e em nossa comunidade do orkut!

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

A LIRA DO DELÍRIO

O Comitê de Cinema da UFOP (ComCine), a Pró-Reitoria de Extensão da UFOP (ProEx), o Instituto de Filosofia, Artes e Cultura (IFAC/UFOP) e o Cine-Teatro Vila Rica apresentam a programação do Cineclube ComCine do final deste ano. Todas as sessões são gratuitas, com filmes da Programadora Brasil – Central de Acesso ao Cinema Brasileiro.






Nesta semana:

Assim como o futebol, o Carnaval é uma parte constitutiva essencial do imaginário brasileiro. Curiosamente, no entanto, são dois fenômenos que o cinema brasileiro de ficção poucas vezes conseguiu filmar com a intensidade de sentimento que os fenômenos congregam. Uma das exceções certamente é este A Lira do Delírio, onde Walter Lima Jr. incorpora à própria estrutura e forma do filme uma tamanha liberdade que acabou transformando a experiência de realizá-lo, assim como a de assisti-lo, em algo próximo do êxtase e da perda de sentidos típicos da folia momesca. Triste e alegre, como o Carnaval, o filme marca ainda a última atuação de Anecy Rocha, falecida ainda antes da montagem ser concluída, e que reluz com especial brilho na tela.


:: A LIRA DO DELÍRIO

De Walter Lima Júnior
(RJ, 1978, fic, cor, 105 minutos)


No intervalo entre dois carnavais de um bloco de Niterói, uma “taxi-girl”, Ness Elliot, se envolve com um rico e ciumento amante. Para submetê-la à sua vontade, ele tenta os mais diversos artifícios, como a tentativa de transformá-la numa traficante de tóxicos e o seqüestro de seu bebê. Desesperada mas firme, ela procura ajuda de antigos companheiros do bloco de sujos Lira do Delírio.



Data: Sexta, 28 de novembro

Local: Cine-Teatro Vila Rica

Hora: 23:00


ENTRADA FRANCA




CONTOS DA QUARTA-FEIRA DE CINZAS

Por Rodrigo de Oliveira


Nem toda a alegria impregnada em A Lira do Delírio pelas imagens festivas de um bloco de carnaval marchando pela rua, nem mesmo a figura risonha de Paulo César Pereio pairando fantasmático sobre estas imagens, podem esconder o sereno pesar anunciado pelo texto que ouvimos na abertura. É o próprio Pereio que apresenta aquele universo de exaltação, lembrando que a efemeridade faz parte de sua natureza íntima.


Dita desta maneira, num tom que parece evocar uma voz do além, talvez esse chamado à realidade soe profético. No entanto, A Lira do Delírio não é um exercício de prospecção, mas um sincero inventário das ilusões. Olha-se para o Carnaval com uma frontalidade que talvez nenhum outro filme brasileiro jamais tenha alcançado; é porque não se apega ao pequeno universo que, durante quatro dias do ano, forja um espaço idílico para a fantasia de todos nós. O delírio só pode ser vivido em sua plenitude se houver a consciência de que a quarta-feira de cinzas está logo adiante: nem toda a alegria consegue evitar o desencanto, a ressaca.


Em 1973, Walter Lima Jr., seus atores e uma equipe mínima saíram pelas ruas do centro de Niterói dispostos a mergulhar de cabeça no desfile de blocos. Não havia personagens ainda, apenas atores fantasiados, interagindo com a vida real. Estas são as imagens granuladas e saturadas que aparecem no começo, e depois pontuam a narrativa. Cinco anos depois, o diretor retorna a esse material semidocumental e tenta alinhavá-lo dentro de um enredo. O primeiro corte de um momento a outro dá a dimensão exata do que se passou nesse intervalo. Saímos do encontro animado entre uma foliã e seu cortejador para, num salto, reencontrá-los numa boate, agora já como Nessi Elliot e Cláudio, uma táxi-girl e um malandro da noite. O que antes se mostrava uma franca e desmedida partilha de afetos agora se tornou uma relação comercial, racionalizada pelos papéis que ambos assumiram ao longo dos anos, uma barreira sentimental intransponível.


É uma ressaca moral, antes de qualquer coisa. Em A Lira do Delírio tudo parece mergulhado na mais pura dubiedade. Por trás de uma aparente planificação narrativa, onde se assumem algumas das regras mais clássicas do cinema de gênero (trens misteriosos, seqüestro de bebês, incêndios criminosos, maletas com dinheiro, prostitutas solitárias e um universo masculino entre o protetor e o opressor), surge um senso de profundidade revelador. Mais que improviso, o que há em A Lira do Delírio é uma verdadeira dramaturgia do risco de real. Que os personagens assumam os nomes dos atores que os interpretam, que as situações dramáticas não sejam planejadas num roteiro, mas estimuladas por um diretor que liga a câmera e se dispõe a transformar em cena o que quer que surja nessa arena aberta, tudo isso não trabalha em nome da simplificação do processo, onde a espontaneidade funcionaria como aliviadora das tensões. Pelo contrário: somos constantemente desafiados a encarar o perigo de viver, de sentir. E se o Carnaval é um momento próprio à inversão de papéis, que cada máscara vestida não sirva para esconder quem está debaixo dela, mas sim para adicionar àquela personalidade um traço de caráter que a torne ainda mais complexa.


Tudo recomeça na quarta-feira de cinzas, como Pereio anuncia no final, “e o carnaval passado deixou marcas profundas demais para serem ignoradas”. Num país que estava a um ano de ver a anistia de seus exilados, e que ainda não conseguira calcular os mortos e desaparecidos nos porões da ditadura, a experiência da ressaca parecia tão fundamental e necessária quanto a incontornável vontade de enxergar algum lirismo em meio a todo aquele caos delirante.





Próximo filme do Cineclube ComCine em 2008:


sex 05/12 – O Homem que Virou Suco (de João Batista de Andrade) e A Saga da Asa Branca (de Lula Gonzaga)

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

TUDO BEM

O Comitê de Cinema da UFOP (ComCine), a Pró-Reitoria de Extensão da UFOP (ProEx), o Instituto de Filosofia, Artes e Cultura (IFAC/UFOP) e o Cine-Teatro Vila Rica apresentam a programação do Cineclube ComCine do final deste ano. Todas as sessões são gratuitas, com filmes da Programadora Brasil – Central de Acesso ao Cinema Brasileiro.




Nesta semana:


Concentrado num apartamento de Copacabana em reformas, e abordando o conflito de classes com humor corrosivo e surrealista, Tudo bem sintetiza as mazelas do país e assimila com brilho e inspiração influências do cineasta Luis Buñuel e do escritor Nelson Rodrigues. O filme, grande vencedor do Festival de Brasília, conta com elenco de primeira linha – com destaque para Paulo Gracindo, Fernanda Montenegro e Zezé Motta – e ótima trilha sonora que mistura cânticos do Alto Xingu a Giuseppe Verdi e Igor Stravinsky.



:: TUDO BEM

De Arnaldo Jabor

(RJ, 1978, fic, cor, 110 minutos)


Uma família de classe média do Rio de Janeiro decide reformar o apartamento para o noivado da filha, que só pensa em se casar. O pai é funcionário público aposentado e perdeu o interesse pela mãe, que sofre com a rejeição. O filho é um executivo oportunista. Duas empregadas domésticas completam o quadro de moradores, que têm seu cotidiano totalmente alterado com a chegada dos trabalhadores. Em meio às obras, todos os habitantes desse microcosmo de conflitos sociais vão revelando suas particularidades.



Data: Sexta, 21 de novembro

Local: Cine-Teatro Vila Rica

Hora: 23:00


ENTRADA FRANCA






O PAÍS NA SALA DE JANTAR

Por Marcus Mello



Expoente da segunda fase do Cinema Novo, Arnaldo Jabor iniciou sua carreira como documentarista com o excelente Opinião Pública (1967), mas é na ficção que este diretor carioca nascido em 1940 vai encontrar sua verdadeira vocação. Entre o início dos anos 1970 e a primeira metade dos anos 1980, Jabor produziu uma série de filmes marcantes, combinando um forte traço autoral com uma ampla capacidade de comunicação com as platéias. Se o alegórico Pindorama (1973), sua estréia na ficção, desagradou tanto à crítica quanto ao público, a recuperação viria com Toda a nudez será castigada (1973) e O casamento (1978), vigorosas adaptações cinematográficas de Nelson Rodrigues, que asseguraram uma consagração imediata ao então jovem diretor (admiração compartilhada pelo próprio Nelson Rodrigues).


Tudo bem (1978) dá início a um tríptico de filmes, conhecido como a “Trilogia do apartamento”, que teria continuidade com Eu te amo (1980) e Eu sei que vou te amar (1984). Trata-se de um projeto ambicioso, e muito bem-sucedido, visto por inúmeros críticos como a obra-prima de Jabor. A trama acompanha os percalços de uma família de classe média envolvida na reforma de seu apartamento em Copacabana. O pai, o funcionário público aposentado Juarez Barata (Paulo Gracindo), a esposa insatisfeita sexualmente (Fernanda Montenegro), a filha que só pensa em casar (Regina Casé), o filho meio cafajeste (Luiz Fernando Guimarães) e as duas empregadas domésticas da casa (Maria Sílvia e Zezé Motta) têm seu cotidiano alterado pela convivência com o grupo de operários contratados para a obra.


A partir dessa situação até certo ponto banal, Jabor desenha um retrato desconcertante do Brasil, desnudando nossas idiossincrasias e contradições mais profundas. O aspecto alegórico está presente o tempo inteiro, mas sem prejuízo da comunicabilidade, alcançada pela mistura de situações cômicas e absurdas apresentadas pelo roteiro, assinado por Leopoldo Serran em parceria com Jabor, que dialoga diretamente com o universo de Nelson Rodrigues.


A exemplo de alas de uma escola de samba que elegesse como tema as misérias nacionais - a alienação da classe média, o sincretismo religioso, o apartheid social, a invasão do capital estrangeiro, a ressaca do Milagre Econômico, o gosto pela corrupção -, os dramas do País vão desfilando entre as quatro paredes do apartamento da família Barata, num esforço totalizante que procura oferecer ao espectador, através do cinema, uma interpretação do Brasil.


Verborrágico e excessivo, Tudo bem pode ser visto como uma ópera barroca sobre um país de alma doente. O risco de resvalar para a teatralidade, facilitado pela situação de confinamento dos personagens, no entanto, é evitado pela encenação sofisticada de Jabor, que conta ainda a seu favor com o auxílio de um elenco notável de atores, provavelmente o melhor já reunido numa produção brasileira.

Próximos filmes do Cineclube ComCine em 2008:



sex 28/11 – A Lira do Delírio (de Walter Lima Jr.)


sex 05/12 – O Homem que Virou Suco (de João Batista de Andrade) e A Saga da Asa Branca (de Lula Gonzaga)

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

BANG BANG / BLÁ BLÁ BLÁ

O Comitê de Cinema da UFOP (ComCine), a Pró-Reitoria de Extensão da UFOP (ProEx), o Instituto de Filosofia, Artes e Cultura (IFAC/UFOP) e o Cine-Teatro Vila Rica apresentam a programação do Cineclube ComCine do final deste ano. Todas as sessões são gratuitas, com filmes da Programadora Brasil – Central de Acesso ao Cinema Brasileiro.


Nesta semana:


O cinema de Andrea Tonacci é único e sem paralelos dentro do cinema brasileiro. Por mais que se costume localizar seus filmes no cerne do chamado Cinema Marginal, de fato seus trabalhos se diferenciam bastante do que se realizou em torno daquele movimento cinematográfico. Marcado por uma preocupação rigorosa com a linguagem do cinema em seus elementos constitutivos básicos (fotografia, som e, principalmente, a montagem), seu cinema ainda assim revela-se muito pouco formalista e, ao mesmo tempo, extremamente humano e urgente. Com Bang bang e Bla bla bla..., Tonacci nos impõe um paradoxo de enorme beleza: faz um cinema radicalmente atemporal, mas ao mesmo tempo profundamente fincado no momento histórico em que é realizado. Trata-se de uma dupla de filmes essencial para compreender o Brasil da virada dos anos 1960 para os 1970, mas também de hoje e sempre.




:: blá blá blá...


De Andrea Tonacci


(RJ, 1968, fic, pb, 26 minutos)

[CURTA] O sentido do poder e da palavra em crise situam o homem que os manipula numa idêntica crise pessoal, humana. A farsa do discurso de intenção humanista é total e absoluta. Um ditador num momento de uma grave crise nacional, institucional, confrontado na cidade e no campo por revoltas e guerrilha, na busca de uma paz ilusória, faz um longo pronunciamento pela televisão. Mas a realidade impõe-se à sua ficção e o controle da situação escapa-lhe das mãos. Sobra-lhe uma patética confissão antes de ser tirado do ar.







:: BANG BANG


De Andrea Tonacci


(SP, 1970, fic, pb, 85 minutos)

[LONGA] O ator de um filme em realização vive sem distinção a sua realidade pessoal e a ficção de seu personagem. Busca um sentido e uma saída daquela situação enquanto é perseguido por bandidos, um mágico, uma fantasia amorosa, um bêbado, sua auto-imagem.... A comicidade, os motivos da perseguição, as situações, os personagens, a cenografia, os diálogos e a trilha sonora, que utiliza temas conhecidos de outros filmes, remetem a símbolos, metáforas e à recusa da possível lógica narrativa, permitindo ao espectador uma sensação análoga à do personagem central. Uma viagem bem humorada e visualmente moderna.





Data: Sexta, 14 de novembro

Local: Cine-Teatro Vila Rica
Hora: 23:00



ENTRADA FRANCA










INVENÇÃO SEM LIMITES


Por Marcus Mello

Poucos filmes brasileiros são alvo de um culto tão apaixonado entre os cinéfilos como Bang bang, de Andrea Tonacci. Uma obra concebida sob o signo da irreverência e da liberdade, Bang bang forma, ao lado de O Bandido da luz vermelha (1968), de Rogério Sganzerla, e O pornógrafo (1970), de João Callegaro, a grande tríade metalingüística do cinema paulista produzida na virada dos anos 1960 para os 1970, fortemente inspirada pela obra de Jean-Luc Godard. Era o cinema moderno realizando-se em sua plenitude no Brasil, no auge da ditadura militar.

Nascido na Itália e radicado em São Paulo desde 1953, Andrea Tonacci implode a narrativa clássica em Bang bang, construindo seu filme através de longos planos-seqüência, que encantam pelo insólito das situações, pelo humor e pelo rigor da construção. A trama, ou fiapo de trama, acompanha um homem (Paulo César Pereio) perseguido por três bandidos (um deles travestido) pelas ruas de Belo Horizonte. A influência de Godard manifesta-se de todas as formas em Bang bang, seja pela citação direta ou pela incorporação de elementos estilísticos caros ao diretor franco-suíço, como a preferência pelos travellings ou o uso da metalinguagem. O filme apresenta uma série de seqüências fechadas em si próprias, sem ligação aparente com o que vem a seguir e freqüentemente repetidas com leves alterações, à maneira de variações musicais. O uso recorrente da canção Eu sonhei que tu estavas tão linda, cantada pelos personagens em diferentes momentos da narrativa, acentua esse caráter de composição musical identificado na arquitetura de Bang bang.



Filme de cinema, em que a presença da câmera várias vezes é revelada ao espectador, seja através do reflexo em um espelho ou de um personagem chocando-se contra a lente, Bang bang é um tiro mortal no coração dos acomodados e sem imaginação. Sua invenção não tem limites, provocando momentos da mais alta diversão, dignos de um filme de aventura como Hatari (1959), de Howard Hawks, citado de forma explícita numa das tantas cenas antológicas deste clássico da transgressão.



Já Bla bla bla... é um notável exemplar do cinema político brasileiro. Esse média-metragem realizado por Andrea Tonacci em 1968 contrapõe imagens de arquivo e seqüências encenadas de um grupo de guerrilheiros em ação ao discurso de um político (Paulo Gracindo) diante das câmeras de televisão. A afirmação de Maiakóvski de que não existe arte revolucionária se a forma não for revolucionária aplica-se com perfeição a Bla bla bla..., um pequeno grande filme que, a seu tempo, anunciou os anos de chumbo a serem enfrentados pelo Brasil depois do AI-5, mas consegue ainda hoje permanecer assustadoramente atual.





Próximos filmes do Cineclube ComCine em 2008:



sex 21/11 – Tudo Bem (de Arnaldo Jabor)



sex 28/11 – A Lira do Delírio (de Walter Lima Jr.)



sex 05/12 – O Homem que Virou Suco (de João Batista de Andrade) e A Saga da Asa Branca (curta de Lula Gonzaga)